terça-feira, 17 de novembro de 2009

Do temperamento artístico

O temperamento artístico é uma das coisas mais impossíveis de definir para que se já cunhou um nome. Tão impreciso quanto aqueloutro monstro chamado processo criativo, o temperamento artístico pressupõe alguém de humor instável, oscilante, pendular (e aqui já se vê que ele também aprecia variantes adjetivas). Tal imprecisão é descrita banalmente com os lugares comuns do escritor diante da folha em branco, ou o músico nada ouvindo de sua música interior, ou ainda o pintor temporariamente cego a cores e texturas, mas, na minha opinião, aquele que se diz possuir tal qualidade muitas vezes nem artista é. Ele acorda, para tomar emprestada uma fala do Odorico, a cada dia sabendo da tarefa que o aguarda de descobrir quem será naquele dia. Muitas vezes, não terá paciência para tanto. Noutras, se embriagará. E passará a vida sem jamais saber que poderia ter feito uma obra-prima de qualquer lápis, piano ou pincel. Não obstante, o que pretendo aqui é me perguntar: por que mesmo ele, jamais sabedor da sua condição de criatura a um só tempo miserável e superior, se regozija com sentimentos outonais, decíduos, ou, no dizer de Bandeira, com "a vida inteira que poderia ter sido e não foi"? Em outras palavras, pergunto ao leitor se há uma obscura relação entre o passado e a experiência digna de arte, ou a fruição desta, melhor representada no fato de só depois de uns cinquenta anos podermos ver quão grande é um escritor, por exemplo. Aqui temos outro problema, além daquele suposto distancimento no tempo, presumivelmente necessário para a obra de arte, o do reconhecimento tardio, que um sujeito chamado F. Vincente chamou a atenção, argumentando, de modo intrigante no seu blog, em resposta a um post do Odorico. Estou certo que os contemporâneos de Marcel Proust nem imaginavam que ele era tão magistral. Scott Fitzgerald morreu anônimo, para depois ser o autor de um dos clássicos mais vendidos até hoje nos EUA. Se a crítica tem papel preponderante em quem poderá ser considerado mestre no futuro, será que ela só deveria se debruçar sobre a sua obra passados dez, vinte ou trinta anos, a fim de evitar distorções? O dotado de temperamento artístico, é claro, não está nem aí para os críticos ou para tais questionamentos, quando realmente talentoso ou necessitado. O que ele quer é pôr para fora as impressões ou vivências que o atormentam, por mais tolas ou insuspeitadas que sejam, pois que elas adquirem um significado especial para ele. E a partir do momento em que o artista deixar de se julgar especial, ele nada fará de bom.

domingo, 15 de novembro de 2009

Eis o alumbramento

"Durante um bom tempo, bem mais do que eu me achava capaz, eu fiquei sem realmente ouvir música. Não que eu tivesse parado de escutar canções, mas elas não entravam no meus ouvidos de modo algum diferente do que, digamos, um som banal, como o barulho da serraria aqui perto da minha casa. Freud teria dito nalgum lugar que não gostava de música porque não podia entender os sentimentos que ela causava. Só mesmo um chato, ainda que genial, como ele para querer entender os sentimentos. Minhas motivações, fique claro, foram bem diversas daquelas provindas do austríaco. Eu queria não sentir. Por muito tempo, senti demais. E ao fim e ao cabo, tudo que me restou foi a sensação de ter sido ludibriado nas sensações, assim eu supunha, mais genuínas. Por cerca de dois anos, para me restringir à musica (pois que também deixei de sentir quanto à literatura, à pintura, à arquitetura e todas as demais artes), ouvi artistas de que já me cansara, ou fingia interesse naqueles que surgiam e guardavam alguma semelhança com o que eu poderia apreciar. O gosto musical, como os amores ou amizades, morrem silenciosamente, bem antes de que nos damos conta. Não obstante, essa semana ouvi Stones, e agora ouço Dylan. Eles me fizeram sentir novamente. Não sei se amanhã serei capaz disso, se voltará a minha insensibilidade. Como diz o velho e bom Dylan: "time will tell'. Quanto a esses dois anos, não sinto que os vivi como um morto, como o lugar comum ou aqueles que acreditam viver a vida intensamente afirmam. Não se morre realmente nessas situações. O que ocorre é estarmos exaustos. Ainda que abdicasse de dormir, comer, estudar, trabalhar, namorar ou de qualquer gesto autômato ou visceral, eu nada poderia ouvir. Não, nao estava surdo. Beethoven mesmo surdo foi capaz de ouvir a nona sinfonia se impondo dentro de si, instrumento por instrumento; nota a nota. Tampouco estava ressentido. O ressentimento é sempre fonte das melhoras obras, ou de suas melhores interpretações. Reservo-me no direito de reafirmar: eu nada podia sentir. Que alguém passasse pela vida sem sentir nada, não é novidade para ninguém. Que pessoas morram para a vida depois de algum trauma ou grande perda, já nos deram depoimentos disso os grandes poetas e os programas de televisão mais ordinários. Mas eu já senti e ouvi, e sem razão alguma parei. Mesmo com o amor final, que por ironia ou divertimento do encarregado de nossos destinos, me apareceu justamente nesse ínterim, somente agora voltei a ouvir e sentir. O amor não é sentimento, é existência. E para um artista, ou para o contemplador da obra de arte, ou sentimos ou existimos. Talvez, agora, ao ter de lidar com o fato de existir e sentir, eu serei finalmente capaz de entender a divisão do ser de que falava Platão. Quiçá, uma metade de nosso ser seja destinada à existir e a outra, a sentir. Mas por enquanto, não quero pensar nisso. Quero apenas dizer que voltei a sentir. Eis o alumbramento".

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Por onde andará Luís Cláudio?

Diz Hemingway em Paris é uma festa que nunca devemos viajar com aqueles que não amamos. Eu vou mais longe, nunca se deve estar distante de quem se ama. Na minha primeira faculdade, no curso de Letras, estudei com um sujeito fantástico. Era simples, sem frescuras, enfrentava diariamente uma odisseia para chegar ao CH da UECE desde Maracanaú, e não obstante era o cara mais alegre que já conheci (e também o filho da mãe mais brincalhão com os outros, nunca se podia vacilar perto dele). Ouvindo agora à noite Belchior acompanhado de uma latinha de cerveja (primus, leve e deliciosa), não pude deixar de lembrar das várias manhãs em que passamos juntos, ele ao violão a dedilhar músicas do Belchior, e também de Chico, de Engenheiros do Hawaii, de Legião Urbana, do Capital Inicial, do U2 e de muitos outros. E fica aqui, de tabela, a mensagem de que nunca é demais ouvir Belchior, desaparecido ou não, e também Edinardo e o resto do Pessoal do Ceará. Mas esse post é mesmo para exaltar a figura do Luís Cláudio, por quem eu e o Odorico, que tem um blog muito bom, chamado dessincronizado, temos a mais absoluta e desinteressada admiração. Ou melhor, interessadíssima, pois sentimos falta da sua alegria, da sua contagiante presença. Hoje não sei onde anda, mas vou cuidar de saber o mais rápido possível. Pois, se é difícil encontrar nos dias de hoje alguém decente e interessante ao mesmo tempo, o que dizer de um sujeito que é essas duas coisas e ainda soma a elas o fato de ser alegre e engraçado?! Termino essas palavras com o quadro na "parede da memória" de Luís Cláudio com seus parceiros de banda, a tocar impecavelmente Velha Roupa Colorida na Galeria do Tota, no Centro Cultural Dragão do Mar em Fortaleza:

"...E never, raven, never, raven, never, raven,
passum preto, assum preto, blackbird me responde:
o passado nunca mais!"

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Faraway eyes

"If you're disgusted, and life ain't worth a dime,
find a girl with faraway eyes."

Música belíssima dos Stones, que havia passado desapercebida todos esses anos. A diferença na interpretação de Jagger é que ele canta com simplicidade, sem poses. Aquilo que ele canta é o que ele é, ou foi: um drogado, que não quer ser reformado, e que está vivo para não valer nada. Como dizia Wilde, há uma concorrência feroz para ser tudo hoje, mas Jagger sempre encarnou o sujeito que não queria ser nada, mas só curtir a vida, coisa rara atualmente.

YouTube - Rolling stones - Far away eyes

terça-feira, 2 de junho de 2009

Do título

A palavra extemporâneas vem de um acontecimento da adolescência. Tinha treze anos de idade quando, fanático pelo Engenheiros do Hawaii, ganhei de presente de um amigo um vinil (àquela época, já uma raridade em tempos de cd) de O papa é pop nesses exemplares que traziam o carimbo "Amostra Invendável". Abrindo-se em três capas, trazia um release colocando a banda nas alturas do BrRock de então. Para quem gosta e nunca aceitou o desmanche da melhor formação do Enghaw, vale matar um pouco a saudade: "... Gessinger lembra o que o alegrou no do-it-yourself punk: 'oba! serei o Steve Howe!' como se o punk nunca tivesse existido. Os Engenheiros são extemporâneos." Lembro-me do impacto que a palavra causou pela sua sonoridade e sentido obscuro. Só anos depois viria a tomar conhecimento e ficar fascinado pelo seu significado. Caracteriza aquilo que está fora do tempo, ou ainda, que é inoportuno. Esse é o objetivo dessas crônicas, serem fora do tempo. São dirigidas a todos aqueles que bocejam diante dos textos que apregoam a morte do significado e a impossibilidade da representação. Tentam também, quando possível, serem divertidas. Portanto, sejam bem-vindos!